[ editar artigo]

Tecnologia sobre a mesa: carne de laboratório é a aposta para o futuro?

Tecnologia sobre a mesa: carne de laboratório é a aposta para o futuro?

Atualmente, por diversos fatores tais como o aumento de adeptos à dietas vegetarianas e ao flexitarianismo (dietas semi vegetarianas) e a preocupação com o meio ambiente, há um crescente mercado para produtos que sejam alternativos à carne convencional. A alta tecnologia cresce na engenharia de alimentos e vem mostrando novas formas de produção de proteína animal, como é o caso da carne de laboratório, também conhecida como carne limpa (do inglês “clean meat”) ou in vitro. 

O primeiro a desenvolver a carne in vitro foi o fisiologista holandês Mark Post, em 2013, e, posteriormente, ele criou a startup Mosa Meat. No cenário holandês, também há a Meatable. Atualmente, existem diversas outras startups pelo mundo, como as israelenses Aleph Farms, que desenvolveu bifes, e a Supermeat, pioneira na produção de carne de frango. As principais startups americanas a são Memphis Meat, produtora de almôndegas bovinas, e a Finless Food, com o diferencial do desenvolvimento da pasta de atum.

O processo concebido por Mark Post é realizado por meio de uma biópsia, na qual há a coleta de células animais denominadas miossatélites, que são células-tronco musculares responsáveis por criar um novo tecido quando o músculo é lesionado. A coleta é colocada em um meio de cultura com nutrientes e fatores de crescimento. Com apenas uma pequena amostra são geradas trilhões de células. Com isso, as células formam um pequeno filamento de tecido muscular. E, em cerca de nove semanas, essa combinação de filamentos forma o tecido muscular. A carne pode então ser processada usando tecnologias alimentares padrão, como, por exemplo, colocando-as em um moedor de carne para produzir carne moída. Para a produção em escala, é utilizado um biorreator, com o intuito de acelerar o crescimento.

A maioria das startups da agricultura celular é geralmente financiada por fundos de capital de risco  e aceleradoras. Para continuar o desenvolvimento do produto, a startup Mosa Meat captou, em 2018, € 7,5 milhões do Bell Food Group, líder no mercado de carnes na Suíça e da holandesa M Ventures. No mercado de peixes, a americana Finless captou US$ 3,5 milhões (R$ 14,3 milhões) para desenvolver uma alternativa à captura massiva de peixes no mar. Na Holanda, a Meatable levantou US$ 10 milhões (R$ 40,6 milhões) em investimentos para aprimorar seu processo de produção de carne.

Mark, fundador da Mosa Meat, começou com o custo de um hambúrguer por US$ 332 mil e calcula que o preço de mercado será de US$11, valor que só poderá ser alcançado caso haja produção em escala industrial. Até agora, a carne só é feita em vidro, no laboratório. Já na startup Aleph Farms, uma fatia fina de bife atualmente custa cerca de US$50, mas espera-se que este custo seja reduzido  até 2021. Empresas como a Memphis Meat e Aleph Farms estão focando em baratear o custo das carnes, que é bastante elevado. O objetivo deles é fabricar a carne cultivada a um custo comparável ao da carne convencional. Em contrapartida, a Mosa Meat pontua em seu site que o foco tem sido a melhoria do produto e o desenvolvimento de um processo de produção escalável. 

A respeito da comercialização do produto, a startup pioneira Mosa Meat, em seu site, relata: “Estamos buscando uma primeira introdução no mercado nos próximos anos.  É muito difícil se comprometer com um prazo específico porque ainda existem algumas incógnitas e fatores científicos. A primeira introdução provavelmente será em pequena escala. Vários anos depois disso, pretendemos estar amplamente disponíveis em restaurantes e supermercados”.

Já a americana Finless Food, produtora de carne de peixe, pontua que o produto ainda não está disponível, mas que poderá estar em alguns locais até o final do ano. Entretanto, a empresa relata que a tecnologia é muito cara e pode levar anos para que se torne acessível para os consumidores em geral. Segundo a Associação de Agricultura Celular (ACS), nos EUA, a produção industrial deve atingir larga escala e distribuição mundial a partir de 2025. Antes disso, prevê apenas pequenas experiências regionalizadas.

As startups acreditam que com a agricultura celular estarão contribuindo, principalmente, em três pilares da sociedade:

  • Meio ambiente, pois, de acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, o setor pecuário é responsável por 15% do total das emissões globais de gases de efeito estufa induzidas pelo homem, e 70% da floresta amazônica já foi desmatada para criação de gado. Com a produção da carne in vitro, esses números seriam reduzidos drasticamente, colaborando com a redução da pegada de carbono na produção de alimentos. 

  • Bem-estar animal, pois a produção de carne in vitro não exige que os animais sejam abatidos, salvando bilhões deles do sofrimento. 

  • Saúde Humana, visto que ocorreria uma redução drástica de casos de doenças como salmonella e Escherichia coli, já que a carne é cultivada em laboratório, onde o risco de contaminação bacteriana é reduzido extrema ou até completamente.

Entretanto, há contrapontos acerca da proposta de valor da agricultura celular. A bioquímica Viviane Abreu Nunes Cerqueira Dantas, professora do curso de Biotecnologia da USP, pondera a respeito da confiabilidade desses produtos: “Os fabricantes terão que identificar claramente quais as substâncias empregadas no processo de diferenciação celular, comprovando a segurança e a qualidade nutricional”.

Já Jean-François Hocquette, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Agronômicas da França (INRA) ressalta que “É muito difícil de se chegar a uma conclusão definitiva sobre o impacto de carbono e outros gases poluentes pela carne artificial, porque esse produto ainda não existe em escala comercial. Os estudos atuais utilizam modelos”. “Também faltaria analisar o impacto da fabricação de todos os ingredientes necessários para uma produção desta carne em grandes quantidades.”, acrescenta o cientista. Além disso, também há desafios a respeito da palatabilidade da carne in vitro, visto que, para poder se assemelhar ainda mais à carne produzida de forma convencional, as pesquisas precisam considerar sua composição (nervos, gordura, entre outros).

A respeito de todas essas informações, fica o embate: será essa a maneira de consumirmos carne no futuro? Será dessa forma que iremos preservar os recursos do planeta? Serão a ciência e a tecnologia capazes de criar um produto que unifique meio ambiente, saúde e bem-estar animal? Não sabemos a resposta a essas perguntas, só temos uma certeza: a ciência necessita avançar.

Food Trends

Ler conteúdo completo
Indicados para você