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Locavorismo na produção de alimentos - o que é e como incorporar?

Locavorismo na produção de alimentos - o que é e como incorporar?

 

Tendência que veio para ficar e já é incorporada como estratégia de sustentabilidade por empresas, startups e pelo varejo. 

Mas o que é mesmo? Locavorismo se refere ao consumo de alimentos cultivados localmente, ou seja, um alimento comida produzido a uma distância próxima de onde vai ser consumida, movido por uma questão de ética social, estímulo da economia local, e o cuidado com o meio ambiente. No entanto, tem ampliado seus conceitos. Entenda essa amplitude, os benefícios e desafios dessa estratégia e confira exemplos de marcas brasileiras neste texto. 

A Europa iniciou o movimento. E, nos Estados Unidos, em 2019, o cultivo de alimentos locais foi o principal  fator para o consumidor considerar um produto como ambientalmente sustentável, segundo pesquisa da International Food Information Council (IFIC). Em nosso país continental, a tendência é crescente e já foi apontada no relatório Q Trends, da Equilibium Latam, na tendência "Biozonas de marca" - em que regiões se tornam conhecidas por um determinado alimento, categoria, etc.  

 

No Brasil, a biozona da Amazônia tem sido valorizada por outros países. O açaí - uma fruta enraizada na cultura dos nossos índios - conquistou o mundo. A tapioca viajou o Brasil e começa a aterrissar em diversos países. As barreiras de suprimento e logística no Brasil são reais; no entanto, algumas marcas, incluindo mercado de massa já tem ousando trocar o tradicional morango, uva por graviola, cupuaçu, caju, açaí. É um começo. A Liotécnica, empresa de ingredientes brasileira, tem aberto algumas conversas e iniciativas neste sentido

 

Outro exemplo brasileiro pode ser o famoso queijo da Serra da Canastra. A região conta com cerca de 800 produtores artesanais, espalhados por sete municípios. Atualmente, os queijos estão com selo de caseína, significando que foram feitos na área delimitada pela Indicação de Procedência Canastra, garantindo a origem do produto. A compra pode ser feita nas fazendas ou em pontos autorizados, filiados à Aprocan (Associação dos Produtores de Queijo Canastra) como “parceiros guardiões”.

 

Queijo da serra da Canastra ganha selo de autenticidade - Revista Menu

 

Quando se trata de mercado, o locavorismo não possui uma definição específica, E o termo "cultivado localmente" têm gerado uma oportunidade para empresas  criarem uma definição própria, desde que seja verdadeira e faça sentido para o consumidor

 

Confira os principais benefícios de adotar a estratégia “local”:

 

  1. Criar confiança e transparência com os consumidores a respeito da fabricação de seus produtos;

  2. Desenvolver a economia local; 

  3. Fornecer garantias sobre fonte, qualidade e segurança, bem-estar animal e condições dos trabalhadores;

  4. Contribuir para uma dieta planetária - que traz diversidade e sustentabilidade do solo e amplia os benefícios para a saúde humana;

  5. Ser visto como apoiador de comunidades locais, fazendas familiares e pequenos produtores;

  6. Construir uma empresa que busca reduzir os impactos ambientais negativos, minimizando as emissões de gases de efeito estufa (GEE) do transporte;

  7. Ter um diferencial em relação às marcas de massa. 


 

No entanto,  no mundo atual globalizado, sabemos que muitas empresas têm fábricas concentradas em determinados locais, seja por incentivos fiscais ou competitividade logística. E com isso os  insumos e matérias primas da natureza viajam alguns quilômetros até chegar na fábrica e, novamente, após processados, viajam novamente alguns quilômetros até chegar à mesa do consumidor.  

 

E agora? Como levar o locavorismo para os produtos da indústria? 

 

Investigações do New Nutrition Business  (NNB) ao redor do mundo indicam que os consumidores estão abertos à produtos de regiões distantes, desde que sejam naturais, autênticos e de proveniência clara.

Podemos exemplificar com a empresa holandesa Tony Choconely, cujo diferencial está em produzir chocolates em uma região específica da África, sem explorar o trabalho escravo e exportando para Europa e EUA. Ela também denuncia as condições desumanas nas plantações de cacau causadas pelo monopólio das grandes corporações. Embora o seu chocolate não seja de origem local holandesa tampouco europeia, a companhia é autêntica e se preocupa com as condições de trabalho dos produtores, agregando, assim, valor à marca. E como estratégia de comunicação, a marca traz uma barra, sem quadrados regulares, e sim com o formato do mapa da região que é produzido para gerar "talkability". É a ampliação conceito de locavorismo.

No setor de ingredientes, a NEXIRA, empresa fornecedora de ingredientes naturais, também possui um projeto especial em sua produção de goma acácia. A extração é feita nas plantações de árvores de acácia na África, sendo ela uma grande fonte de renda para o continente. Além disso, o cultivo desta árvore proporciona a manutenção do solo e auxilia na diversificação da biodiversidade, colaborando com a sustentabilidade. A NEXIRA também afirma contribuir com a educação da população em relação à colheita, reflorestamento e participação em estudos que visam aprimorar o conhecimento acerca da goma acácia. 

 

APROFUNDANDO NO CONTEXTO BRASILEIRO: 

Algumas empresas brasileiras já trabalham com o locavorismo “de longe” em seus produtos, incluindo autenticidade e ética social em seus produtos. 

Selo Paraná: O SEBRAE do Paraná criou o selo para alimentos produzidos no estado. As empresas filiadas são certificadas desde que seus produtos demonstrem respeito aos consumidores e tratem com seriedade a qualidade e a segurança em seus processos, além de estarem sempre inovando. Atualmente mais de 180 empresas conquistaram o Selo e outras estão se preparando para fazer parte desse grupo seleto e diferenciado. As categorias de alimentos variam entre os funcionais, orgânicos e veganos, passando por carnes, pescados e embutidos, grãos, cereais, açúcares e farináceos, até bebidas, produtos lácteos, hortícolas e produtos de apicultura.

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“Com relação aos produtos de origens: consumi-los e apoiar esse conceito é proteger histórias e memórias sensitivas, pois transformam um território e melhoram a economia local. Devemos nos orgulhar das nossas origens e valorizar as pessoas envolvidas’’, disse a consultora do SEBRAE, Mabel Guimarães.

Natura: a empresa incorporou aos seus produtos 18 ativos vegetais da Amazônia, com atuação em quatro territórios desde 2011, trazendo renda e avanços para a região e para as famílias envolvidas no cultivo. A empresa investiu em um modelo de desenvolvimento que valoriza a floresta amazônica e práticas agrícolas sustentáveis, combatendo o desmatamento. Por essas razões, a empresa faz parte do movimento B-Corp - grupo mundial de empresas que unem lucro com benefícios socioambientais -, além da marca Ekos possuir o selo UEBT (Union for Ethical Biotrade), que reconhece o uso de ingredientes de origem sustentável e a relação ética com os fornecedores. 

 

Bem Estar Sustentável: Produtos

 

Água de coco Obrigado: a empresa cultiva seus próprios cocos em uma fazenda sustentável na Bahia, propriedade que possui 70% do seu terreno em uma área de preservação ambiental. Apenas 30% do empreendimento corresponde ao espaço  de exploração dos cocos. Assim como a Natura, também é certificada como empresa B-Corp. Além disso, há a preocupação com os resíduos da fabricação, assim, utilizam integralmente o alimento: a água é retirada do coco fresco. A polpa do coco seco é utilizada para fabricar leite de coco e/ou óleo de coco. A casca do coco é transformada em mantas e biorrolos biodegradáveis, que são usados para otimizar o processo de regeneração de áreas degradadas, recuperando a vegetação de encostas. E quer saber o que é mais surpreendente? Obrigado entrou no mercado com 22 marcas à sua frente. E hoje é a terceira maior marca brasileira, exportando para a China. A marca Obrigado amplia o conceito de locavorismo pra o que a Equilibrium Latam define como biozonas de marca. 

 

A expansão acelerada da marca de água de coco Obrigado - ISTOÉ ...


 

Conseguimos observar que os produtos locais, além de chamarem a atenção por sua origem e qualidade, também envolvem uma questão ética, ambiental, social e de saúde.  

Acreditamos que o direito a condições dignas de trabalho é um desejo de muitos, assim como a oferta de produtos com qualidade, com procedência, que preservem o solo, a saúde e desenvolva a economia. 

 

Sendo assim, quais os pequenos movimentos que sua empresa pode fazer para dar o primeiro passo nesse sentido? Quais fornecedores podem desenvolver ? E em quais biozonas podem investir? 





 

Opinião

BHB Food
Cynthia Antonaccio
Cynthia Antonaccio Seguir

Empreendedora especializada em Inovação em alimentos e marketing. Atualmente lidera, como Fundadora e CEO, a equipe da Equilibrium, empresa com atuação no Brasil e LATAM, que desde 2001 ajuda indústrias de alimentos, bebidas, suplementos e bem-estar.

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