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O novo normal das experiências gastronômicas

O novo normal das experiências gastronômicas

Se o “novo normal” é o digital, qual será o novo normal da experiência gastronômica? Como muitos de vocês sabem já fui “dona de restaurante” durante 15 anos de minha vida. É um negócio de muita paixão, porém complexo e arriscado. Agora, mais ainda.

Com a pandemia, o burburinho dos encontros mais descontraídos tem sido substituído, nos países que já começam a retomar atividades, vemos garçons mascarados, locais meio vazios com mesas que mantém 2 metros de distância entre si e, alguns com medição de temperatura dos clientes logo na entrada. Nada convidativo!

Estas fotos, publicadas pela JWT Intelligence, mostram restaurantes orientais com divisórias de plástico ou acrílico entre as mesas. O Penguin Eat Shabu, de Bangcoc, instalou divisórias de plástico com a ajuda da tubulação de PVC branco e permite apenas o compartilhamento de um máximo de duas pessoas por mesa. Vamos combinar que não é uma forma interessante para uma experiência de comer fora de casa, ou mesmo tomar um chá e trabalhar!

Já o Mediamatic ETEN instalou Serres Séparées (estufas separadas) ao longo da orla como uma solução para as refeições à distância. Um cenário bem mais convidativo. E olha que interessante: abriu em 21 de maio e já está com reservas completas até junho.

Já na França, o designer parisiense Christophe Gernigon, desenvolveu um projeto denominado de “Plex’Eat”, em que uma espécie de sino de acrílico com fendas que fica pendurado no teto do restaurante, cobrindo a cabeça do cliente. Assim é possível ficar próximo das pessoas e ainda conversar pelos espaços. O que convenhamos, não é nada convencional.

São espaços e soluções criativas para lidar com uma situação que é atípica, mas capaz de transformar o que enxergamos como normal hoje.

Segundo especialistas na matéria da JWT Intelligence, 75% dos restaurantes independentes nos EUA “não conseguirão aguentar" e a National Restaurant Association prevê que todo o setor perderá US $ 225 bilhões nos próximos três meses por causa da pandemia.

Jantar fora não será o mesmo novamente. Mesmo seguindo rigorosamente os padrões de segurança, instalando design de mesas que proporcionam uma experiência gastronômica única e memorável, ou até usando um aplicativo de saúde que indica o status de uma pessoa por meio de um código de cores - verde, amarelo ou vermelho.  O propósito de comer fora para confraternizar, ter uma experiência com amigos, isso vai ter que ser adiado, ou esperar quais soluções virão por aí.

Indo mais profundo na discussão, os chefs estão usando a oportunidade para rever seu propósito no negócio. Em um artigo de abril, do The Guardian, intitulado “Os restaurantes nunca mais serão os mesmos após o coronavírus - mas isso pode ser uma coisa boa”, o autor Jonathan Nunn traz problemas do setor, como aluguel extorsivo e mão de obra barata. Nunn ressalta: "para avançar, precisamos começar examinando o que gostaríamos de mudar no setor, dando espaço para coisas que nutrem a nós e nossas comunidades e descartando o que acreditamos que não merece sobreviver".

Um relatório da WGSN, um dos maiores bureaus de pesquisa do mundo, aponta que as empresas precisam definir estratégias para engajar os consumidores de modo profundo, criando locais que dê a sensação de “estar em casa”. Bares, restaurantes, cafeterias e lanchonetes vão ter que repensar seu modelo de espaço para reduzir aglomerações e criar esses ambientes mais aconchegantes.

Antes mesmo da pandemia, os restaurantes já enfrentavam o dilema de introduzir o novo em suas rotinas. Os restaurantes vão precisar restaurar um elo com seus clientes. E ele deverá ter muita confiança e casualidade para conquistar esse público que está acostumado com uma nova forma de consumo.

Aqui no Brasil já existem algumas tendências que se desenham para o futuro. Entre elas, a valorização dos espaços abertos. Os restaurantes e bares pequenos, que antes eram tidos como acolhedores, dão lugar para locais arejados com vários espaços de convivência. Alguns restaurantes já atendem essa nova realidade, como o NOU e Viva Café, ambos em São Paulo - SP.

 

E ainda aumentará o investimento nos “Dark Kitchens ou restaurantes fantasmas”, aqueles que mantém apenas a experiência do comer pelo delivery.

Mesmo antes da pandemia, o food service já estava começando a apostar nessa modalidade. E a resposta para esse investimento é óbvia: menos custos. Agora, além da economia financeira, existe a praticidade que este tipo de serviço oferece ao consumidor.

Essa tendência já tinha uma boa projeção de crescimento no país antes de toda essa situação. Para a Associação de Bares e Restaurantes (ABRASEL), esse setor promete movimentar mais de R$ 18 bilhões esse ano.

Uma das novidades que chamam a atenção é a startup Digital Restaurants de São Paulo, que gerencia dezenas de restaurantes voltados exclusivamente para delivery.  Ela escoa, aproximadamente, 1000 pedidos diários. Sem salões para interação, sem contato físico com o cliente, apenas a entrega do seu prato em casa. Um prato cheio para uma nova tendência.

São novos tempos e se preparar para vivenciar essas novas experiências é o melhor a se fazer. O consumidor vai desejar locais mais arejados, com mais espaço. Vai levar cada vez mais o “chef pra casa”, com delivery e até a experiência de cozinhar mais em casa, com os produtos selecionados das cestas e kits que já estamos acostumados. O que vai mudar é o acesso que esse cliente vai ter a esses produtos.

Bem… depois que tudo isso passar, as pessoas vão pensar 2 vezes antes de encarar filas e restaurantes lotados. Após a pandemia, a função dos restaurantes em acolher, receber e agradar vai ser posto à prova com esses novos desafios.

 

 

 

Opinião

BHB Food
Cynthia Antonaccio
Cynthia Antonaccio Seguir

Empreendedora especializada em Inovação em alimentos e marketing. Atualmente lidera, como Fundadora e CEO, a equipe da Equilibrium, empresa com atuação no Brasil e LATAM, que desde 2001 ajuda indústrias de alimentos, bebidas, suplementos e bem-estar.

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