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O mercado do “GUT HEALTH”

O mercado do “GUT HEALTH”

Gut health, ou “saúde digestiva”, traz benefícios muito além do intestino e é, hoje, uma das maiores promessas científicas para a nossa saúde, influenciando desde a imunidade (alvo de desejo atual) à saúde mental. 

Por ser um tema de frutíferas publicações, o mercado tem de estar atento não somente ao desenvolvimento de um novo produto, mas também à comunicação da marca, a fim de tornar um tema tão técnico em algo de fácil compreensão e utilização pelos consumidores.

 

Confira aqui como o mercado de saúde digestiva, brasileiro e global,  vem se comportando e entenda os principais produtos e ingredientes e cases de sucesso.

 

ANTES VAMOS SÓ ENTENDER A  NUTRIÇÃO E O MERCADO NO BRASIL:

A conscientização da população e dos influenciadores sobre as questões de saúde intestinal começou com os probióticos, por meio do pioneirismo da Yakult®, foi disseminada pela Danone, com Activa®, e fortalecida por vários players brasileiros do mercado de nutracêuticos e suplementos. Isso  ampliou a demanda e gerou crescimento do mercado de probióticos. 

Os probióticos apresentaram, no Brasil, uma  taxa de crescimento anual composta (CACR) de 11% até 2022, segundo dados da  Ganeden BC30, sendo o líder desse mercado na América Latina.

O uso desses produtos tem como objetivo melhorar o funcionamento do trato digestivo, mas também visa benefícios muito além desses, que fazem parte de uma saúde integrativa. Não é à toa que alguns pesquisadores chamam o intestino de “segundo cérebro”. 

 

Mas se foram estes microorganismos que começaram a história da versão 1.0 da saúde digestiva, podemos dizer que a versão 2.0 agregou as fibras prebióticas, ou seja o que "alimenta" estes microorganismos. E arrisco nomear os alimentos fermentados e "free from" como uma versão 3.0, mais holística, 3.0. E as novas cepas probióticas, com benefícios específicos, como a versão 4.0 - a evolução mais promissora da "gut health". Nada se exclui, tudo se complementa.  

 

E O CONSUMIDOR ENTENDE?                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               

 

Apesar de hoje, principalmente as mulheres e mães,  saberem mais da importância de se ter uma microbiota saudável, os brasileiros não têm compreensão sobre os benefícios dos produtos pertencentes também ao mercado de gut health

Pesquisa feita pela New Nutrition Business observou que o Brasil teve uma das porcentagens mais baixas de consumidores respondendo à pergunta de “bom” ou “ruim” para a saúde digestiva em relação a produtos como kombucha, kefir e vegetais fermentados. Isto porque estes alimentos de origem oriental não são da cultura brasileira. E os primeiros produtos no mercado local começaram a aparecer em 2017. Educar o consumidor leva tempo e investimento. um caminho mais rápido e barato está no trabalho das marcas junto aos nutricionistas e influenciadores digitais, com foco no estilo de vida saudável e, principalmente, nos consumidores early-adopters (pessoas mais dispostas a adotar novas tendências).


 

COMO ESTÁ O MERCADO REGULATÓRIO?


 

MERCADO MUNDIAL

Nos Estados Unidos, o mercado de saúde digestiva superou as expectativas, com vendas de aproximadamente US $ 5,1 bilhões, em 2019, segundo Andrea Wroble, analista no setor de saúde e bem-estar da Mintel. Wroble ainda destaca que as inovações e estratégias de marketing estão trazendo sucesso para esse mercado que, durante alguns anos, ficou estagnado. Portanto, é como eu digo: "passou da  hora de P&D e Marketing pensarem inovação juntos."

 

Segundo análises feitas pela Fior Markets, empresa de inteligência de mercado, a região da América do Norte dominou o comércio mundial de produtos para saúde digestiva com US$ 12,97 bilhões, em 2017. Diversas empresas na América do Norte estão lançando novos produtos, a fim de entrar em diferentes segmentos desse mercado. O aumento da disponibilidade de produtos para a saúde digestiva estimulou a demanda e o apoio do governo a novos desenvolvimentos e avanços tecnológicos, também ofereceu uma série de oportunidades de crescimento para essa área. A região Ásia-Pacífico também cresce rapidamente no setor. 




 

QUAIS PRODUTOS FAZEM PARTE DESSE MERCADO?

  • Probióticos: são microorganismos vivos que habitam o intestino e tem benefícios específicos do intestino ao cérebro. Podem ser encontrados em forma de suplementos (cápsulas, canudos, stickers com cepas específicas e mais estudadas pelos benefícios para a saúde) ou em alimentos, principalmente iogurtes. Há também microorganismo em menor quantidade em alimentos fermentados como o KefirKimchi Kombucha, cujo consumo está  se tornando uma prática cotidiana e familiar em muitos países, com vendas crescendo fortemente, principalmente pelo seu apelo de naturalidade. 

  • Prebióticos: são fibras não digeríveis que funcionam como “alimento” para os probióticos. São acrescentadas em alguns leites e fórmulas lácteas, e encontradas naturalmente em alimentos como banana, cebola, alcachofra e cereais integrais. A inulina é uma destas fibras e um dos ingredientes mais utilizados com esta função pela indústria de alimentos.

  • Simbióticos: sé a combinação de probióticos e prebióticos, atuando de forma sinérgica na microbiota intestinal. Como exemplos de simbióticos temos: iogurtes ou bebidas lácteas fermentadas adicionadas de fibras, suplementos alimentares, fármacos, sucos de frutas e legumes fermentados.

  • Enzimas digestivas: enzimas são proteínas especializadas, que ajudam na quebra dos alimentos. Elas auxiliam na parte metabólica da digestão, sendo um importante produto para a saúde digestiva.

  • "Free From"

    • Isentas de FODMAPs: uma dieta baixa em FODMAPs é uma solução para aqueles indivíduos que sofrem da Síndrome do Intestino Irritável (SII), doença que acomete um em cada sete indivíduos em todo mundo. Entenda mais sobre os FODMAPs aqui

    • "Sem Glúten": apesar de uma parte pequena da população ter intolerância ao glúten (6%) ou ser celíaca (1%), a busca por alimentos sem glúten é uma demanda do consumidor impulsionada por naturalidade, hoje já em estagnação. 

    • Leite A2: Diferente da maioria que contém a proteína A1, o leite A2 vem de uma espécie de vacas que produzem leite com a proteína A2, conhecida por ser menos alergênica e portanto contribuir com a saúde intestinal.


 

DILEMAS DA COMUNICAÇÃO

Mesmo entendendo que a “entrega” desses produtos visa uma saúde total do indivíduo e que seus benefícios vão muito além do bom funcionamento do intestino, não são todas as pessoas que se sentem confortáveis para falar abertamente sobre essa temática. Christine Nicolay, gerente de vendas e marketing da ORAFTI Active Food, na Bélgica, em matéria para New Hope Network, pontua que “bem-estar” é um conceito-chave para a marca se comunicar com o consumidor sobre saúde intestinal, afinal, quem não quer experimentar essa sensação? Falar sobre os detalhes fisiológicos da saúde intestinal também pode fazer com que os consumidores fiquem mais sensíveis ao desejo de produtos para saúde digestiva, e não é esse o principal foco.

A vice-presidente do Hartman Group, Shelley Balanko, em entrevista ao FoodNavigator, pontua que “a saúde digestiva tornou-se uma preocupação mais comum nos últimos anos, mas a maneira pela qual afeta as escolhas que os consumidores fazem quando vão às compras depende de como eles estão envolvidos com sua própria saúde e bem-estar”. Ela acrescenta que “para uma grande marca que está conversando com o consumidor principal, acho que faz muito sentido vincular a saúde digestiva à energia, enquanto marcas menores com ingredientes exclusivos para consumidores mais engajados, diríamos que sim, absolutamente, falar sobre a relação entre a digestão saudável e a saúde do microbioma”. 


 

QUESTÕES REGULATÓRIAS NO BRASIL.

 

O uso de probióticos em alimentos requer prévia avaliação da Anvisa, segundo a RDC  241/2018. A avaliação efetuada pela Agência contempla três elementos principais: comprovação inequívoca da identidade da linhagem do microrganismo, de sua segurança e de seu benefício.

 

A Anvisa publicou, em março deste ano de 2020, a primeira versão do Guia para instrução processual de petição de avaliação de probióticos para uso em alimentos, fundamentado em guias internacionais e na experiência da própria Agência, na análise de dossiês técnico-científicos sobre o tema. 

 

Julia Coutinho, da consultoria para assuntos regulatórios VISANCO lembra "para a aprovação de novas cepas de probióticos as empresas tem que seguir essas orientações, que se diferem para uma alegação geral (benefício gastrointestinal) ou específica (relacionada a redução do risco de uma doença):. Para o registro do produto final, a empresa deve apresentar estudo de estabilidade que comprove a sobrevivência das cepas até o final do prazo de validade proposto. 

 





 

EXEMPLO DE MARCAS

 

Aqui no Brasil esse é um mercado ainda subexplorado, poucas empresas se apropriaram desses do tema.

 

Activia, da Danone

Activia, foi lançada em 1987 com foco total no funcionamento intestinal. Quem não se lembra do desafio de 15 dias ou seu dinheiro de volta? 

No entanto, duas estratégias ajudaram a formular o case de sucesso: a exploração do sabor e da cremosidade como peça chave associada às sua funcionalidade, e o "paredão verde" que seduzia o consumidor nas gôndolas. 

A chegada do grego balançou o mercado. E, recentemente, a marca reposicionou sua comunicação e lançou novos produtos de forma a ampliar o benefício entregue pelos probióticos. 

  • Tamarine, da Hypera : a marca oferece suplementos alimentares de probióticos e prébióticos. O probiótico vem em 30 capsulas e o mix de fibras prebióticas em duas formas: gomas ou em pó sem sabor. Eles possuem também uma formulação kids.

 

 

  • Enterogermina PLus, da Sanofi. com  Bacillus clausii (probiótico) , que contribui para o equilíbrio da flora intestinal

  • Simfort, da Vitafor: é um mix de probióticos em forma de sachês. O seu produto contém cinco cepas: Lactobacillus acidophillus, Lactobacillus casei, Lactococcus lactis, Bifidobacterium lactis e Bifidobacterium bifidum. Os diferenciais listados pela empresa são: 

    • resistentes ao pH do estômago (como toda bactéria ácido-lática); 

    • combinação de lactobacillus e bifidobacterium, aumentando assim a amplitude de atuação;

    •  quantidades probióticas ideais: 5 bilhões de microorganismos vivos;

    • suas cepas são liofilizadas, não sendo necessário o armazenamento em geladeira;

    •  sua praticidade em forma de sachê;

CASES INTERNACIONAIS:

 

  • GoodBelly Probiotics Crunchybars: a empresa oferece barras de cereais em dois sabores: manteiga de amendoim com cacau e manteiga de amêndoas e mel. Sua base é feita com nozes. Elas são sem glúten e contém 1 bilhão de probióticos da cepa BB-12®. 

 

  • Effi Probiotic Grickpea Granola: pioneiros na criação da granola feita à base da leguminosa grão-de-bico. A empresa combina alimentos que aumentam a biodisponibilidade dos nutrientes, com a adição de grão-de-bico + nozes, fornecendo boas fontes de gorduras e ômega 3, juntamente com fibras solúveis e insolúveis. E, claro, além de tudo isso, a granola é acrescida de probióticos sem laticínios (Bacillus coagulans).


 

  • Cereal Happy Inside: A linha desses produtos é da famosa marca Kellogg. O slogan desta linha é happy inside, o que significa feliz por dentro, e é exatamente esta a proposta de valor do produto. Aqui, os cereais possuem probióticos e fibras prebióticas como ingredientes. Em sua composição, apresentam 8 a 9 gramas de fibra, 1 bilhão de unidades formadoras de colônias de bactérias probióticas e 2,5 gramas de prebióticos por porção.

 

 

  • Light & Fit: a linha pertence à Danone S.A., que planeja introduzir vários novos produtos à base de plantas, além do acréscimo de probióticos. Light and Fit é um iogurte à base de plantas com probióticos.

 

Com a pandemia, a questão da imunidade e a sua relação com os probióticos também ganhou destaque. O consumidor ainda não faz essa associação, mas se eu pudesse fazer algumas apostas, colocaria muitas fichas nesse mercado que deve crescer a passos largos nos próximos anos, tanto na categoria de alimentos e bebidas, como na de suplementos. Porque se há algo com estudos mais consolidados para a imunidade é sem dúvida, a saúde intestinal.

Opinião

BHB Food
Cynthia Antonaccio
Cynthia Antonaccio Seguir

Empreendedora especializada em Inovação em alimentos e marketing. Atualmente lidera, como Fundadora e CEO, a equipe da Equilibrium, empresa com atuação no Brasil e LATAM, que desde 2001 ajuda indústrias de alimentos, bebidas, suplementos e bem-estar.

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