EVENTOS Kely gouveia

Comunidades são o novo centro do marketing e estão redefinindo o crescimento das marcas 

kely Gouveia

Editora Chefe; Head de inovação e Negócios Jornalista focada em educação, arte, tecnologia, empreendedorismo e todas as atividades que possam causar impacto no mundo.

Durante anos, o marketing digital operou com uma lógica relativamente estável: falar com o maior número possível de pessoas, ocupar espaço nos feeds e transformar visibilidade em crescimento. Mas essa equação começou a perder força. Em uma palestra no SXSW, a estrategista de marketing Sara Wilson, conhecida por analisar comportamento digital e cultura contemporânea, trouxe uma leitura contundente sobre essa mudança: o comportamento do consumidor não desapareceu, ele apenas mudou de lugar. 

As pessoas continuam descobrindo marcas, comprando produtos e recomendando novidades, mas fazem isso cada vez mais em espaços menores, mais privados e baseados em afinidade, como DMs, grupos fechados e comunidades digitais. O dado que simboliza essa virada é direto: hoje, a principal forma de compartilhamento no Instagram acontece nas mensagens privadas. A conversa deixou o feed e migrou para ambientes onde a confiança é maior e a influência é mais qualificada. 

Da lógica de alcance para a lógica de relevância 

A principal provocação da palestra é clara: crescer deixou de ser apenas uma questão de alcance. O desafio agora é ser relevante o suficiente para entrar nas conversas que realmente importam. Em vez de tentar falar com todo mundo, as marcas precisam importar profundamente para alguém. 

Esse deslocamento ajuda a explicar por que muitas marcas consolidadas, com altos níveis de awareness, vêm perdendo espaço em consideração e uso, enquanto marcas mais novas avançam. O diferencial não está apenas na presença, mas na capacidade de criar conexão cultural e pessoal. 

Dados apresentados mostram que marcas com alta relevância podem crescer até seis vezes mais do que aquelas que investem prioritariamente em escala. A diferença está na forma como essas marcas se inserem na vida das pessoas: elas não apenas aparecem, elas fazem sentido. 

Comunidade como espaço de identidade 

Um dos conceitos centrais da apresentação foi a definição de comunidade. Mais do que audiência ou base de seguidores, comunidade é um espaço de identidade compartilhada. São grupos formados por pessoas que se reconhecem em valores, interesses, crenças e estilos de vida. 

Essa mudança é especialmente relevante quando se observa o comportamento das novas gerações. Enquanto a sociedade ainda tende a classificar indivíduos por dados demográficos, a maioria das pessoas prefere se definir por suas paixões, hábitos e visões de mundo. E essas identidades se manifestam dentro de comunidades. 

Para as marcas de alimentos, bebidas e suplementos, isso amplia o campo de atuação. Em vez de segmentar apenas por idade, gênero ou renda, torna-se mais estratégico entender quais comunidades estão organizando o consumo. Performance, bem-estar, longevidade, rotina saudável, alimentação consciente e prazer sem culpa são alguns dos territórios onde essas identidades se consolidam. 

O papel das marcas dentro das comunidades 

A palestra também reforça um ponto crítico: comunidades não são espaços onde marcas entram automaticamente. Existe uma lógica própria, muitas vezes implícita, que valoriza autenticidade, contribuição e pertencimento. 

Marcas que tentam extrair atenção sem oferecer valor tendem a ser rejeitadas rapidamente. Por outro lado, quando conseguem contribuir de forma relevante, criando reconhecimento e identificação, passam a ser incorporadas pela própria comunidade. 

Esse processo transforma a dinâmica de crescimento. Consumidores deixam de ser apenas compradores e passam a atuar como participantes, criadores e amplificadores. O resultado é um modelo em que a recomendação se torna orgânica, impulsionada por conexões reais. 

Comunidades como motor de crescimento 

O principal insight da palestra é que relevância comunitária se traduz em resultado de negócio. Quando uma marca consegue fazer parte da identidade de um grupo, ela aumenta sua capacidade de gerar escolha, recorrência e recomendação. 

Esse movimento cria um ciclo contínuo: reconhecimento gera participação, participação gera amplificação e amplificação gera crescimento. Em um ambiente onde a atenção está cada vez mais fragmentada, esse modelo tende a ser mais eficiente do que estratégias baseadas apenas em exposição. 

Para o setor de alimentos, bebidas e suplementos, a implicação é direta. O crescimento passa menos por aparecer mais e mais por ser levado adiante pelas pessoas dentro das comunidades que elas já valorizam. Porque, no cenário atual, visibilidade ainda pode ser comprada. Relevância precisa ser construída. 

Kely Gouveia

Kely Gouveia

About Author

Editora Chefe; Head de inovação e Negócios Jornalista focada em educação, arte, tecnologia, empreendedorismo e todas as atividades que possam causar impacto no mundo. Em março de 2023, se juntou à equipe da Equilibrium Latam para compor o time e atuar em inovação para projetos como o BHB Food e a Academia da Nutrição.

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