Canetas emagrecedoras mudam consumo e impactam agro

As canetas emagrecedoras redesenham a demanda do agro brasileiro ao modificar padrões de consumo alimentar e influenciar, de forma gradual, o equilíbrio entre lavouras e pecuária. É o que aponta um relatório do Itaú BBA, que analisa os efeitos do uso de medicamentos da classe GLP-1 sobre a dieta e, consequentemente, sobre a cadeia de produção de alimentos.
Microesferas plant-based podem substituir Ozempic?
Fármacos como Ozempic e Mounjaro, utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e na perda de peso, reduzem o apetite e promovem mudanças qualitativas na alimentação. O impacto já começa a ser observado além da área da saúde, alcançando o varejo e o campo.
Menos calorias, novas escolhas no prato
Segundo o relatório, a dieta é o comportamento mais impactado entre usuários de medicamentos GLP-1. Estudos analisados pelo banco indicam redução de até 40% na ingestão diária de calorias em determinados grupos, especialmente entre aqueles que utilizam os medicamentos com foco no emagrecimento.
Mais do que comer menos, esses consumidores passam a comer diferente. Dados citados pelo Itaú BBA mostram que 56% dos usuários afirmam fazer escolhas alimentares mais saudáveis, enquanto 47% optam por porções menores. O resultado é uma queda mais expressiva no consumo de produtos ricos em açúcar, gordura e carboidratos refinados.
Proteínas ganham espaço no consumo
A análise de um painel com 150 mil domicílios nos Estados Unidos, acompanhados entre 2022 e 2024, indica redução média de 5,3% nos gastos com supermercado nos primeiros seis meses após o início do tratamento. Entre consumidores de maior renda, a retração chegou a 8,2%.
As maiores quedas foram observadas em categorias como snacks e salgadinhos, produtos de padaria doce e cookies. Em contrapartida, frutas, barras nutricionais, snacks de carne e iogurtes apresentaram desempenho positivo, reforçando a tendência de valorização de alimentos com maior densidade nutricional.
Por que a proteína tende a crescer no longo prazo
O relatório aponta que a demanda por proteínas tende a se fortalecer como resposta à perda de massa magra associada ao emagrecimento acelerado. Estudos citados indicam que cerca de 38% do peso perdido com o uso desses medicamentos corresponde à massa magra, o que tem levado a comunidade científica a recomendar maior ingestão proteica durante o tratamento.
As recomendações podem chegar a 1,2 a 1,6 grama de proteína por quilo de peso corporal por dia, acima do padrão tradicional. Esse movimento favorece cadeias ligadas à produção de carnes, ovos, lácteos e ingredientes proteicos, além de produtos industrializados de maior valor agregado.
Impactos para o agronegócio brasileiro
Para o agro brasileiro, os efeitos tendem a ser indiretos, porém relevantes no médio e longo prazo. Cadeias ligadas a grãos voltados ao consumo humano, como trigo e derivados, podem enfrentar maior pressão, enquanto grãos destinados à ração animal, como milho e soja, podem se beneficiar com o fortalecimento da pecuária.
A produção de carnes, especialmente frango e suínos, aparece bem posicionada para capturar essa mudança, assim como ovos e lácteos, que combinam alto valor nutricional e custo mais acessível ao consumidor.
Mudança ainda gradual no Brasil
Apesar do potencial de transformação, o Itaú BBA adota cautela quanto à velocidade dos impactos no Brasil. Mesmo em um cenário considerado mais agressivo, o banco estima cerca de 5,5 milhões de usuários desses medicamentos até 2027, o equivalente a aproximadamente 2,7% da população acima de cinco anos.
Em NY, restaurantes ajustam menus para público do Ozempic
Fatores como menor renda per capita, uso intermitente dos medicamentos e diferenças culturais devem limitar a rapidez da mudança no padrão alimentar quando comparado a mercados mais desenvolvidos.
Fonte: Agro Estadão
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