Austin, Texas — “Quando há uma história verdadeira por trás, o fundador não para.” A frase é de Serena Williams, que participou do SXSW 2026 como empreendedora residente do programa Catalyst, iniciativa da Acumen America em parceria com a Reckitt para apoiar fundadores de saúde sub-representados.
No palco, ao lado de dois fundadores de healthtechs, Williams defendeu que a conexão pessoal com o problema é o que diferencia os empreendedores que resistem dos que desistem. “Quando as pessoas investem em algo só porque é uma oportunidade de mercado, sem conexão real com o problema, ficam acomodadas diante dos obstáculos.”
O argumento ganhou concretude nas histórias de Mika Eddie e Kwame Liddell, dois fundadores que usaram tecnologia não para criar novos mercados, mas para consertar pontos de ruptura que o sistema de saúde americano há décadas ignora.
Mika Eddie é cofundadora da Malama, plataforma de cuidado materno que integra doulas comunitárias, monitoramento remoto de biometria e suporte contínuo entre consultas para mulheres cobertas pelo Medicaid, seguro público que financia quase metade dos nascimentos nos EUA. O problema que a tecnologia resolve é preciso: 53% das mortes maternas acontecem no período pós-parto, e apenas 30% das mulheres seguradas pelo Medicaid comparecem à única consulta de acompanhamento prevista pelo sistema, a revisão de seis semanas. A Malama preenche esse vazio com cuidado contínuo, coordenado por uma doula que conhece o bairro, sabe onde há fraldas disponíveis hoje e consegue conectar a mãe aos recursos essenciais antes que uma emergência aconteça.
“O sistema não foi construído para gerar resultados saudáveis para as mulheres”, disse Eddie, que passou por três gestações de alto risco antes de fundar a empresa. A startup acaba de fechar uma rodada seed de mais de 9 milhões de dólares e já atende 50 mil mulheres em todo o país. O modelo começou com dez mulheres num grupo de WhatsApp testando protótipos. A escala veio depois, mas a lógica permanece a mesma: tecnologia a serviço da doula, não no lugar dela.
Kwame Liddell chegou a uma conclusão parecida pelo caminho oposto. Enfermeiro em centros de AVC em Chicago, St. Louis e Houston, ele percebeu que seus pacientes não precisavam de mais assistência médica. Precisavam de comida, moradia e transporte. Programas existiam. O acesso, não. “Como enfermeiro à beira do leito, não havia forma fácil de dizer: a senhora precisa disso, deixa eu te ajudar a chegar lá.”
A resposta foi a ThriveLink, um agente de inteligência artificial que opera por telefone e guia o usuário pelo processo de inscrição em benefícios sociais apenas pela voz. Sem aplicativo para baixar, sem formulário para preencher. “Pensei em construir algo que meu avô conseguisse usar”, explicou. A escolha do canal não foi estética. Foi estratégica: pessoas que mais precisam de acesso a serviços são, muitas vezes, as menos equipadas para navegar interfaces digitais complexas. A ThriveLink já opera em mais de 17 estados e acaba de fechar sua rodada pré-seed.
O painel também abordou as dificuldades de captação enfrentadas por mulheres e fundadores negros. Menos de 2% do capital de venture capital nos EUA vai para mulheres fundadoras, e ainda menos para fundadores de cor. Mika Eddie recomendou diversificar as fontes de financiamento, incluindo recursos não diluídos como grants do NIH e fundos estaduais. “Procure os que abrem portas. Você vai ouvir 100 nãos, mas precisa de um sim.”
Para Catherine, da Acumen America, o CEP de uma pessoa ainda é mais determinante para sua expectativa de vida do que seu código genético. Em Austin, bairros a apenas cinco quilômetros de distância registram diferença de quase 20 anos na expectativa de vida. Mudar esse quadro, segundo ela, exige investir em quem entende o problema por dentro, e em tecnologia construída para quem mais precisa dela.




