EVENTOS Kely gouveia

IA precisa de inteligência emocional, não só cognitiva, defende pioneira no SXSW 2026 

kely Gouveia

Editora Chefe; Head de inovação e Negócios Jornalista focada em educação, arte, tecnologia, empreendedorismo e todas as atividades que possam causar impacto no mundo.

Em keynote no festival de Austin, Dra. Rana El Khalyubi argumenta que o futuro da inteligência artificial depende de unir QI e QE das máquinas, e alerta para riscos que vão da desigualdade de gênero à falta de segurança em apps terapêuticos 

Por Kely Gouveia, de Austin (TX) 

No quarto dia do South by Southwest 2026, a cientista e empreendedora Dra. Rana El Khalyubi subiu ao palco do Innovation Conference para defender uma tese que, apesar de soar simples, vai na contramão da maioria dos grandes laboratórios de tecnologia do mundo: a inteligência artificial só vai cumprir seu verdadeiro potencial quando aprender a sentir, ou ao menos a reconhecer, as emoções humanas. 

A conversa, mediada pelo jornalista e podcaster Bob Safian, ex-editor-chefe da Fast Company, foi gravada ao vivo para os podcasts Rapid Response e Pioneers of AI, que a própria Rana apresenta. O título da sessão dava o tom: “Por que o futuro da IA precisa ser centrado no ser humano”. 

De Cairo a Cambridge: uma trajetória fora do padrão 

Filha de dois programadores, Rana cresceu cercada de tecnologia desde a infância no Egito e no Kuwait. A mãe foi uma das primeiras mulheres programadoras a se matricular num curso de computação no Cairo, nos anos 1970. O pai ensinava COBOL. O console de Atari era presença garantida na sala de estar. 

“A tecnologia uniu nossa família”, contou ela ao público. “E essa tem sido uma linha condutora em toda a minha carreira: como podemos construir tecnologia que aproxima as pessoas, em vez de nos isolar?” 

Com doutorado em ciência da computação por Cambridge e pós-doutorado no MIT, Rana cofundou a Affectiva, uma das primeiras startups do mundo focadas em IA emocional, que usava aprendizado de máquina para identificar estados emocionais por meio de expressões faciais e outros sinais não verbais. Em 2021, vendeu a empresa e passou a investir como sócia da BlueTulip Ventures. Toda essa jornada está descrita em seu livro Girl Decoded. 

O QI já evoluiu. Onde está o QE? 

Para Rana, o campo da IA avançou muito na dimensão cognitiva, o chamado QI das máquinas. Mas para alcançar uma inteligência artificial genuinamente geral (AGI), será preciso desenvolver também o QE, a inteligência emocional e social. 

“Só 7% da nossa comunicação são as palavras que escolhemos. Os outros 93% são não verbais: expressões faciais, entonação vocal, gestos, postura”, explicou. “E a tecnologia atual é completamente alheia a tudo isso. A IA de hoje está focada no que você diz, não em como você diz ou qual é o contexto ao redor.” 

Ela foi direta ao identificar o problema estrutural: todos os benchmarks atuais de IA medem apenas capacidades cognitivas. “Precisamos criar benchmarks para o QE da IA”, disse, lançando um chamado à ação para pesquisadores, investidores e usuários. 

A mesa de jantar como microcosmo do debate global 

Em um dos momentos mais pessoais da conversa, Rana falou sobre os dois filhos. Adam, 17 anos, é entusiasta da IA e está usando ferramentas de automação para traduzir os diários manuscritos, em árabe, de trabalhadores egípcios que atuaram nas pirâmides de Gizé nos anos 1930. Jenna, recém-formada em Harvard, é antropóloga da alimentação e não usa IA. Ela mantém um salão cultural em que promove rodas de leitura, saraus de poesia e workshops presenciais, com casa cheia todas as noites. 

“As duas realidades são verdadeiras”, afirmou Rana. “Precisamos, ao mesmo tempo, mergulhar na IA e nutrir nossa conexão humana.” 

Fato ou ficção: os mitos da IA em debate 

A dinâmica mais interativa da sessão foi um jogo chamado “Fato ou Ficção”, com clipes de entrevistas do Pioneers of AI como ponto de partida. Rana analisou quatro mitos comuns: 

Estamos numa bolha de IA? 

Parcialmente ficção. Rana reconhece que há valuations infladas e um “circuito circular” em que grandes empresas se financiam mutuamente, como no caso NVIDIA e OpenAI. Mas vê o ecossistema de fundadores construindo produtos reais como absolutamente concreto. “Estamos nos primeiros dias de uma oportunidade econômica gigantesca.” 

Os robôs vão dominar o mundo? 

Não no sentido cinematográfico. Rana acredita que os robôs assumirão tarefas repetitivas, perigosas ou que simplesmente ninguém quer fazer, como a soldagem de navios. “Queremos que os robôs peguem as tarefas que os humanos preferem não fazer. Não precisamos nos sentir ameaçados por isso.” 

A IA é má para criadores? 

Não necessariamente. A IA democratiza a criação, mas eleva o valor da originalidade humana. “O teto também sobe”, ponderou. “Perspectivas únicas e experiências vividas não vão ser replicadas por máquinas.” 

A IA vai superar a inteligência humana? 

Pode ser, e tudo bem. Rana concordou com a empresária Arianna Huffington, que apareceu num dos clipes: se a IA for mais inteligente que nós no sentido cognitivo, nossa oportunidade é aprofundar o que nos torna humanos, a intuição, a sabedoria, o que Rana chama de “inteligência corporal”. “Estou escrevendo mentalmente meu próximo livro: Girl Embodied.” 

Um clube de meninos: a face menos discutida da IA 

O momento de maior impacto da sessão veio quando Bob Safian exibiu um mosaico de manchetes recentes do TechCrunch sobre novas startups de IA. Todos os fundadores nas fotos eram homens. 

“Esse não é um mito”, disse Rana, direta. “A IA hoje é um clube masculino. E se as mulheres ficarem de fora, como fundadoras, como investidoras, daqui a cinco ou dez anos teremos ampliado o abismo econômico de forma absurda.” Três dos quatro investimentos que ela fez pela BlueTulip Ventures são liderados por mulheres. 

IA como terapeuta: oportunidade com ressalvas importantes 

Uma das perguntas do público tocou num tema cada vez mais presente no cotidiano: o uso de IA para suporte emocional e terapia. Rana vê potencial, mas é cautelosa. 

“Pode haver espaço para a IA como apoio, especialmente de madrugada, quando você está ruminando um problema e não tem a quem recorrer. Mas ela não pode substituir um ser humano real.” Para ela, o problema é que os modelos atuais foram construídos sem guardrails de segurança adequados para esse uso. “Precisamos de benchmarks de segurança para cada modelo lançado. Não estamos nem perto disso.” 

O que vem depois: dispositivos nativos de IA e modelos de mundo 

Ao falar sobre o futuro próximo da tecnologia, Rana apontou duas tendências que acompanha de perto como investidora. A primeira é a criação de dispositivos nativos de IA, já que smartphones atuais foram projetados antes da era da inteligência artificial e não foram pensados para ela. A segunda é o avanço dos “world models”, modelos que não processam apenas texto e imagens, mas compreendem como o mundo físico funciona, incluindo física, espaço e percepção. Essa é a base para a IA física, incluindo robótica e wearables realmente inteligentes. 

“Estamos usando IA em dispositivos pré-IA. Quem está construindo algo do zero, com hardware e software pensados juntos, isso sim vai mudar o jogo.” 

A mensagem final: lean in, mas com voz 

Ao encerrar, Rana foi enfática: o momento exige curiosidade e engajamento, não passividade. Mas também exige que as pessoas se posicionem publicamente sobre o que esperam dessa tecnologia. Ética, diversidade de perspectivas, transparência sobre como os modelos são treinados e validados, impacto ambiental. “Precisamos pedir mais transparência. E precisamos usar nossas vozes para moldar o rumo disso.” 

Para quem se sente sobrecarregado pela velocidade das mudanças, ela deu um conselho prático: configure um agente de IA para entregar um digest das principais notícias do setor toda manhã. “A IA vai acabar fazendo isso por você. Você pode ao menos começar o dia informado.” 

Kely Gouveia cobre o SXSW 2026 para o BHBfood.com e a Equilibrium Latam. 

Kely Gouveia

Kely Gouveia

About Author

Editora Chefe; Head de inovação e Negócios Jornalista focada em educação, arte, tecnologia, empreendedorismo e todas as atividades que possam causar impacto no mundo. Em março de 2023, se juntou à equipe da Equilibrium Latam para compor o time e atuar em inovação para projetos como o BHB Food e a Academia da Nutrição.

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