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Spielberg no SXSW: medo, imaginação e a suspeita de que não estamos sós 

kely Gouveia

Editora Chefe; Head de inovação e Negócios Jornalista focada em educação, arte, tecnologia, empreendedorismo e todas as atividades que possam causar impacto no mundo.

No SXSW 2026, Steven Spielberg transformou uma conversa de palco em uma aula sobre criatividade, cinema e curiosidade humana. Durante mais de uma hora, em diálogo com o jornalista Sean Finney, o diretor percorreu memórias da infância, refletiu sobre o papel do medo na criação e comentou por que ainda acredita no poder do cinema de sala. Entre lembranças pessoais e especulações sobre vida extraterrestre, a conversa revelou como intuição, experiência e imaginação continuam moldando o olhar de um dos cineastas mais influentes da história. 

A origem de tudo: o medo como combustível 

Spielberg descreveu sua infância como marcada por uma imaginação intensa, capaz de transformar qualquer estímulo em terror. Quando seus pais o levaram para assistir a Fantasia, aos sete anos, a sequência “Night on Bald Mountain” o assustou tanto que ele ficou um ano sem dormir direito. Em vez de se afastar desse sentimento, encontrou uma forma de lidar com ele: assustar outras pessoas. “É aí que tudo começa para mim”, disse. “Eu queria exercitar meus demônios do medo e colocá-los em outra pessoa.” 

A restrição em casa também teve influência. Como não podia assistir televisão livremente, desenvolveu uma grande fome por narrativas. O primeiro filme que viu no cinema, The Greatest Show on Earth, em 1952, marcou profundamente sua memória. “Depois disso, meus pais começaram a me levar com frequência”, lembrou. O primeiro contato com o suspense veio com Destination Moon, de George Pal. A cena em que os astronautas precisam decidir o que jogar fora da nave para economizar combustível na viagem de volta gerou nele uma sensação inédita de tensão. 

Close Encounters e uma década de espera 

O projeto que viria a se tornar Contatos Imediatos do Terceiro Grau existia muito antes de Jaws. “Só eu queria fazer esse filme sobre OVNIs, mas ninguém me levava a sério”, contou. Os estúdios associavam o tema ao sensacionalismo. A situação mudou depois do sucesso de Jaws. “Todo mundo veio me perguntar se eu tinha algo guardado. Disseram: faremos o que você quiser.” E ele tinha. 

De E.T. a War of the Worlds: a evolução do olhar 

Spielberg reconheceu que o tom de sua ficção científica mudou ao longo do tempo. A intimidade calorosa de E.T. deu lugar ao pessimismo de War of the Worlds e A.I.. “Qualquer cineasta que diga que o subconsciente não influencia suas escolhas não está sendo honesto”, afirmou. No caso de War of the Worlds, o impacto dos ataques de 11 de setembro foi decisivo. “Eu queria uma metáfora para aquilo.” 

E.T. também marcou uma transformação pessoal. Spielberg filmou a produção em ordem cronológica para que as crianças do elenco vivessem a jornada emocional de forma real. Quando chegou a cena de despedida, era o último dia de filmagem. “A tristeza era real”, disse. “Foi quando pensei que talvez tivesse descoberto o que é ser pai.” Drew Barrymore, que participou do filme ainda criança, continua próxima do diretor até hoje. 

OVNIs, UAPs e a hipótese de que não estamos sós 

Um dos momentos mais aguardados da conversa foi a discussão sobre o novo filme Disclosure Day, previsto para junho. Spielberg contou que um artigo publicado pelo New York Times em 2017, sobre um piloto da Marinha que registrou um objeto não identificado próximo ao porta-aviões Nimitz, reacendeu seu interesse pelo tema quase cinquenta anos depois de Contatos Imediatos. “Era uma reportagem séria, feita por jornalistas sérios, sobre algo que parecia ter sido encoberto.” 

A audiência no Congresso dos Estados Unidos em 2023, com depoimentos sob juramento de ex-militares e agentes de inteligência, reforçou sua curiosidade. “Não tenho nenhuma informação exclusiva”, disse com humor. “Mas tenho uma forte suspeita de que não estamos sós. E isso já é suficiente para eu querer fazer um filme sobre.” 

A ironia pessoal também apareceu na conversa. “Fiz o maior filme sobre OVNIs da história e nunca vi nada. Nenhum amigo que teve avistamentos me convidou para o grupo.” 

Velocidade, TikTok e a sensação de tempo sequestrado 

Ao falar sobre o ritmo cada vez mais acelerado do cinema, Spielberg atribuiu parte dessa mudança à estética dos videoclipes dos anos 1980, que treinaram o público a processar muitas informações em pouco tempo. “Agora, com TikTok e Instagram, tudo vira uma sequência de flashes visuais.” 

Ele próprio testou o Instagram por duas semanas. A experiência terminou com uma sensação curiosa. “Parecia que eu tinha perdido tempo, como se tivesse sido abduzido por alienígenas. Para onde foi aquele tempo?” 

Mesmo assim, ele vê sinais de resistência. Spielberg citou com admiração Train Dreams, um filme contemplativo que acompanha 75 anos da vida de um personagem em menos de duas horas. “Isso me deixa muito feliz”, disse. “A paciência ainda existe. E ainda pode funcionar.” 

Kely Gouveia

Kely Gouveia

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Editora Chefe; Head de inovação e Negócios Jornalista focada em educação, arte, tecnologia, empreendedorismo e todas as atividades que possam causar impacto no mundo. Em março de 2023, se juntou à equipe da Equilibrium Latam para compor o time e atuar em inovação para projetos como o BHB Food e a Academia da Nutrição.

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