Kely gouveia

IA na saúde: como a inteligência artificial está acelerando pesquisas clínicas e transformando o futuro da medicina 

kely Gouveia

Editora Chefe; Head de inovação e Negócios Jornalista focada em educação, arte, tecnologia, empreendedorismo e todas as atividades que possam causar impacto no mundo.

O que acontece quando a ciência mais de ponta do Brasil chega ao principal festival de inovação do mundo? A resposta foi dada ao vivo no São Paulo House do SXSW 2026, durante o painel “São Paulo at the Frontier: AI & the Future of Health”. Por cerca de uma hora, quatro nomes de peso discutiram como a inteligência artificial já está sendo usada para encurtar o caminho entre laboratório e paciente, e o que ainda está por vir. 

Mediado por Ronaldo Lemos, fundador e diretor do ITS Rio, o debate contou com Sidney Klajner, presidente e CEO do Hospital Israelita Albert Einstein; Carolini Kaid, pesquisadora de biologia do câncer e CEO da IOS Biotec, startup spin-off da USP; e Vanessa Zambelli, cientista sênior do Instituto Butantan. 

IA como bússola no laboratório 

Um dos pontos centrais do painel foi a forma como a inteligência artificial está sendo usada para dar previsibilidade a pesquisas que, por sua complexidade, levavam décadas para avançar. 

Carolini Kaid trouxe um exemplo concreto do trabalho da IOS Biotec, que usa o vírus Zika como vetor para entregar terapias diretamente ao cérebro. “A gente pega a sequência de uma proteína, coloca nos programas e eles nos dão a conformação terciária. De 500 possibilidades, temos um top 10. No laboratório, em vez de fazer 500 experimentos, fazemos 10”, explicou. Resultado: menos tempo, menos custo e mais confiança nos dados apresentados a investidores. 

A pesquisadora também contextualizou historicamente o papel da visão e do erro na ciência. Ela citou a história de Jim Allison, Nobel de Medicina de 2018, que quase abandonou o desenvolvimento do Keytruda por não entender que o aumento inicial do tumor era, na verdade, o sistema imunológico atacando as células cancerosas, fenômeno que depois foi nomeado de pseudoprogressão. “Antes não havia IA como temos hoje. Ela pode nos ajudar a prever o comportamento do medicamento e evitar que descobertas sejam enterradas por falta de compreensão”, afirmou Carolini. 

Diagnóstico no fim do mundo com um celular 

Sidney Klajner, do Einstein, apresentou talvez o caso mais impactante da sessão: um programa desenvolvido com LLM para detecção precoce de leishmaniose em áreas remotas da Amazônia. O profissional de saúde, sem necessidade de ser especialista e sem precisar estar online, fotografa a lesão do paciente. O sistema retorna a probabilidade de ser leishmaniose. Se a probabilidade for alta, o paciente é encaminhado ao Instituto de Medicina Tropical de Manaus. 

O resultado: 92% de acurácia e uma doença que, tratada precocemente, tem cura simples, mas que em estágios avançados pode ser fatal. O projeto já é um programa oficial do Ministério da Saúde e foi expandido para detecção de esporotricose e lobomicose. 

“O que estamos buscando cada vez mais é utilizar inteligência aumentada, telemedicina e bancos de dados analíticos para trazer mais equidade, para que a população tenha condições de acesso melhores do que tem hoje”, disse Klajner. Em um país com as disparidades geográficas e sociais do Brasil, essa pode ser uma das aplicações mais transformadoras da IA em saúde. 

Regulação: vilã ou bússola? 

O debate também tocou em uma tensão clássica da inovação em saúde: velocidade versus segurança. Klajner foi preciso ao criticar a prática de testar tecnologias médicas em países sem agências regulatórias robustas, como acontece com alguns equipamentos cirúrgicos no Chile. Para ele, isso equivale a fazer pesquisa clínica sem seguir os passos necessários para garantir que o benefício supera o risco. 

Carolini, por sua vez, ofereceu uma perspectiva complementar: para quem faz ciência dentro de uma startup, o regulatório funciona como um guia de trilha. “Você pode seguir sem ele, mas a chance de se perder e ter que voltar é gigantesca”, resumiu. A pesquisadora destacou que, ao analisar histórias de inovação com ciclos mais curtos, geralmente não é o regulatório que trava, e sim a falta de visão ou de investimento. 

O que vem por aí: terapia gênica, vacinas e anticorpos monoclonais no SUS 

Os três especialistas desenharam um panorama animador para o futuro próximo da saúde brasileira: 

IOS Biotec (USP/Piracicaba) 

Com financiamento da FAPESP e da SOR, está desenvolvendo uma plataforma inédita de terapia gênica que usa o vírus Zika para entregar a maquinaria do CRISPR diretamente ao cérebro, com aplicações em câncer cerebral e outras doenças neurológicas. 

Instituto Butantan 

Além da já aprovada vacina da dengue, o pipeline inclui mais de 15 produtos, entre eles vacinas para chikungunya, vírus respiratório sincicial, raiva e zika, além de anticorpos monoclonais que chegarão ao SUS a preços acessíveis. 

Hospital Einstein 

Investimento em parceria com a Fiocruz para produção de terapias celulares e expansão do uso de inteligência analítica para ampliar o acesso em regiões carentes. 

O Brasil está na fronteira. E isso é literal 

O painel deixou claro que inovação em saúde não é algo que acontece apesar do Brasil, mas a partir dele. A biodiversidade, a escala do SUS, a robustez de institutos como Butantan e Einstein e o ecossistema de startups que brota da USP e de universidades públicas criam um conjunto único de condições para que o país lidere nessa área. 

A IA, nesse contexto, não é o protagonista da história. É a ferramenta que permite que pesquisadores com visão transformem décadas de pesquisa em anos, e anos em meses. O protagonista, como ficou evidente no SXSW, continua sendo humano. 

Kely Gouveia

Kely Gouveia

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Editora Chefe; Head de inovação e Negócios Jornalista focada em educação, arte, tecnologia, empreendedorismo e todas as atividades que possam causar impacto no mundo. Em março de 2023, se juntou à equipe da Equilibrium Latam para compor o time e atuar em inovação para projetos como o BHB Food e a Academia da Nutrição.

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