Kely gouveia

O que faz um profissional acordar querendo ir trabalhar 

kely Gouveia

Editora Chefe; Head de inovação e Negócios Jornalista focada em educação, arte, tecnologia, empreendedorismo e todas as atividades que possam causar impacto no mundo.

Por Kely Gouveia / Cobertura SXSW 2026 para BHBfood / Equilibrium 

No primeiro dia do SXSW 2026, em Austin, a jornalista e autora Jennifer B. Wallace subiu ao palco para falar sobre algo que a ciência mostra ser central para a saúde, o engajamento e a produtividade das equipes: a necessidade humana de sentir que importa. 

Wallace é fundadora do Mattering Institute e autora do livro Mattering: The Secret to a Life of Deep Connection and Purpose. Sua tese central é que todo ser humano tem uma necessidade psicológica fundamental de se sentir valorizado e de perceber que sua presença faz diferença na vida de outras pessoas. A sensação concreta de que seu trabalho tem peso real, de que você seria sentido falta se saísse, de que as pessoas ao seu redor sabem quem você é além do cargo que ocupa. 

Quando essa necessidade é atendida, as pessoas se engajam, contribuem e inovam. Quando não é, elas recuam como forma de autoproteção, e esse recuo tem um custo alto para as organizações. 

O problema que a indústria conhece bem 

Imagine um cientista de P&D que passa meses, às vezes anos, desenvolvendo uma formulação. Testa, ajusta, refina. O produto vai para aprovação, para o marketing, para o mercado. E então? Silêncio. Ele nunca sabe se o produto vendeu, se o consumidor respondeu bem, se aquela decisão técnica que defendeu com tanto cuidado fez alguma diferença lá na ponta. 

Wallace encontrou esse padrão em um lugar inesperado: entre bombeiros. Ela entrevistou um chefe chamado Greg, que descreveu como sua equipe chegava a questionar o impacto do próprio trabalho, pessoas que arriscavam a vida para salvar outras, simplesmente porque nunca sabiam o que acontecia depois que a ambulância levava o resgatado. O desconhecimento do desfecho alimentava o burnout e até o cinismo. 

“Não basta fazer um trabalho importante. As pessoas precisam saber que seu trabalho faz diferença”, disse Wallace. 

Quando Greg se tornou chefe, criou um sistema para rastrear os resultados dos resgates e compartilhar com a equipe. O engajamento mudou. Para qualquer profissional que entrega um projeto e nunca recebe um retorno sobre o que aconteceu depois, a lição é a mesma: fechar esse loop transforma a relação das pessoas com o próprio trabalho. 

O framework S.A.I.D.: um mapa para gestores 

Wallace organizou sua pesquisa em quatro ingredientes essenciais para que as pessoas se sintam valorizadas no ambiente de trabalho. O acrônimo em inglês é SAID. 

S de Significant (Significativo): Ser conhecido de forma única, não apenas pelo cargo ou pela entrega. Wallace contou sobre um executivo cujos colegas trouxeram seu lanche favorito junto com um prêmio profissional. O que o fez chorar não foi o reconhecimento formal, mas a prova de que era verdadeiramente conhecido. “Mattering vive nos detalhes”, disse ela. No dia a dia, isso se traduz em um gestor que sabe quais são as ideias que um membro do time carrega há meses e abre espaço para que elas sejam ditas antes de uma decisão ser tomada. 

A de Appreciated (Apreciado): Ter evidência clara de que o que você faz importa. Wallace visitou uma fábrica onde cada estação de trabalho tinha um cartão mostrando como aquela peça se encaixava no produto final e uma foto da pessoa que um dia usaria aquilo. Um gesto simples que conectou cada trabalhador ao propósito maior do seu trabalho. Compartilhar com o time os resultados do que foi construído juntos, sejam dados de mercado, sejam feedbacks de consumidores, cumpre exatamente essa função. 

I de Invested in (Investido): Ter alguém no seu canto que acredita no seu desenvolvimento e age em função disso. Em setores com alta especialização técnica, a retenção de talentos depende diretamente disso. Profissionais com conhecimento acumulado ao longo de anos pedem demissão quando percebem que a empresa usa sua expertise sem investir em seu crescimento. 

D de Depended on (Necessário): Saber que você seria sentido falta e que sua contribuição é insubstituível. Em times enxutos, isso costuma ser verdade na prática, mas raramente é dito. E o não dito, segundo Wallace, pesa tanto quanto o dito. 

O alerta da automação para quem trabalha com inovação 

Wallace trouxe um dado que merece atenção redobrada de quem trabalha no setor de inovação: líderes de tecnologia estão prevendo que, nos próximos dez anos, humanos podem não ser necessários para a maioria das tarefas. “O maior desafio à frente não é acompanhar as máquinas”, disse ela. “É proteger essa necessidade humana fundamental.” 

Para indústrias que já convivem com automação de processos produtivos e começam a incorporar inteligência artificial em formulação, pesquisa de mercado e desenvolvimento de produtos, a pergunta se torna urgente: como garantir que os profissionais que ainda são essenciais saibam, de forma concreta, que importam? 

O que muda quando as pessoas sabem que importam 

Os dados são diretos. Funcionários que recebem feedback significativo e específico são 48% menos propensos a buscar outro emprego e até cinco vezes mais engajados no trabalho. Criar uma cultura onde as pessoas se sentem valorizadas é também uma decisão de negócio. 

Wallace encerrou sua palestra com uma imagem simples: um condutor de trem que se aproxima de um homem transtornado e pergunta, com calma, se ele está bem. Aquele gesto pequeno respondeu à pergunta invisível que, segundo a pesquisadora, todos os seres humanos carregam consigo. 

Você me vê? Você me ouve? Eu importo? 

A resposta começa por fechar um loop que muitas vezes fica aberto: contar para quem criou o produto o que aconteceu com ele depois que saiu das mãos deles. 

Kely Gouveia

Kely Gouveia

About Author

Editora Chefe; Head de inovação e Negócios Jornalista focada em educação, arte, tecnologia, empreendedorismo e todas as atividades que possam causar impacto no mundo. Em março de 2023, se juntou à equipe da Equilibrium Latam para compor o time e atuar em inovação para projetos como o BHB Food e a Academia da Nutrição.

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