Bagaço do maracujá gera bioativos para alimentos e cosméticos

Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas desenvolveram uma tecnologia que transforma bagaço do maracujá em bioativos para alimentos e cosméticos. O projeto, conduzido pela Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA-Unicamp), utiliza métodos sustentáveis de extração e já resultou em aplicações comerciais no mercado cosmético.
A pesquisa amplia o aproveitamento industrial do maracujá ao transformar resíduos antes descartados em ingredientes de maior valor agregado, alinhados à demanda por soluções naturais e sustentáveis.
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Bagaço do maracujá concentra compostos bioativos
O estudo começou em 2013, a partir de um projeto voltado ao aproveitamento dos subprodutos da espécie Passiflora edulis. Segundo o professor Julian Martínez, responsável pela pesquisa, cerca de 70% do peso do maracujá é descartado durante o processamento industrial, já que apenas a polpa costuma ser utilizada.
O bagaço, formado principalmente por sementes e cascas, mostrou potencial para a obtenção de compostos com aplicações nutricionais, cosméticas e farmacêuticas.
“O óleo da semente é rico em ácidos graxos poliinsaturados. Ele também possui tocoferóis, tocotrienóis e compostos fenólicos, que atuam como antioxidantes naturais”, explica Martínez.
Os pesquisadores desenvolveram extratos combinados em miniemulsões capazes de concentrar propriedades bioativas da parte lipídica e hidroetanólica do maracujá. Segundo a equipe, os compostos apresentaram capacidade de inibir enzimas ligadas à degradação do colágeno e da elastina, além de estimular a renovação celular.
Extração sustentável elimina solventes derivados do petróleo
Além do reaproveitamento do bagaço do maracujá, o projeto se diferencia pelo método utilizado para obtenção dos extratos.
As técnicas tradicionais de extração costumam empregar solventes derivados do petróleo, considerados tóxicos e poluentes. Já a tecnologia desenvolvida pela Unicamp utiliza dióxido de carbono (CO₂) em estado supercrítico e uma solução composta por água e etanol.
Segundo Martínez, o CO₂ em condições supercríticas atua como um solvente eficiente para retirar compostos antioxidantes presentes nas sementes, como tocoferóis e tocotrienóis.
Já a mistura hidroetanólica foi aplicada na extração dos compostos fenólicos do bagaço, com ajustes de temperatura e composição para aumentar o rendimento e a eficiência do processo.
Tecnologia da Unicamp já chegou ao mercado
A tecnologia foi licenciada pela Rubian Extratos, startup graduada pela incubadora da Unicamp entre 2015 e 2018. A patente foi depositada com apoio da Inova Unicamp.
Com suporte da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a empresa avançou em testes de segurança, performance e aplicação em formulações cosméticas, incluindo cremes, loções e séruns.
Segundo Eduardo Aledo, gerente-geral e sócio da Rubian Extratos, os testes apontaram resultados relacionados à hidratação, firmeza e redução de manchas e rugas.
O primeiro produto comercial foi lançado em 2022 com a marca Rejuvenate, inicialmente voltado ao canal magistral e às farmácias de manipulação. Posteriormente, a tecnologia passou a ser disponibilizada também para empresas do canal industrial.
Bioativos naturais avançam em alimentos e suplementos
Além das aplicações cosméticas, os pesquisadores trabalham no desenvolvimento de novas possibilidades para alimentos, ingredientes funcionais e nutricosméticos de ingestão oral.
O avanço acompanha uma tendência crescente nas indústrias de alimentos, bebidas, suplementos e ingredientes: o uso de compostos naturais obtidos a partir de resíduos agroindustriais.
Mais do que reduzir desperdícios, o aproveitamento do bagaço do maracujá mostra como subprodutos da cadeia alimentícia podem gerar ingredientes bioativos com potencial de aplicação em diferentes segmentos industriais.
Fonte: Época Negócios
Foto: Divulgação/FEA-Unicamp



